"O mundo é um moinho"
"...Ouça-me bem amor... Preste atenção, o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões à pó..." Cartola
25.5.07
19.3.07
Tudo o que eu queria agora é ver um daqueles filmes ruins e repetidos na televisão em sua companhia. A gente falaria mal das cenas bobas e depois você caçoaria de mim porque eu sempre choro em finais previsíveis. Isso, claro, se eu não dormisse com a cabeça no seu peito, antes do fim, como o de costume.
Certamente você me atrapalharia a vestir o pijama vindo pegar nos meus seios nus, como se isso fosse uma grande novidade pra você. Tão certo como isso, seria você tentando disfarçar a impaciência ao ouvir meus casos porque o Simpsons já ia começar.
Talvez você me trouxesse um copo d’água, metade quente e metade gelada. Ou então pedisse milk shake no dellivery, o que te renderia muitos beijinhos e sorrisos da minha parte.
Eu ouviria seus casos repetidos da adolescência simulando não conhecê-los.
Você resmungaria da série que eu assisto, dizendo que é "coisa de mulherzinha", mas acabaria rindo das piadas da mesma.
Durante a noite você roubaria meu travesseiro. E eu, a sua coberta.
E, no dia seguinte, você pontualmente interromperia meu almoço com um telefonema. “Só liguei para te mandar um beijo”.
Se algum desejo me fosse concedido agora, juro que nem pensaria em lugares bonitos, comidas gostosas e grandes viagens, como você sabe que eu tanto gosto. Eu pediria apenas que a brisa que bate em meu rosto fosse a mesma que bate no seu. Será que ela é capaz de cruzar os oceanos?
6.3.07
Como ela pode se deprimir e deixar de comer as guloseimas que tanto gosta acreditando naquela revista mentirosa? Por um momento, aquelas fotos de mulheres de plástico, com corpos perfeitos, tinham a convencido de que era feia, gorda e cheia de celulite. Mas agora, olhando-se bem no espelho, achou seus culotes incrivelmente femininos e seus furinhos no bumbum até charmosos. Suas coxas levemente grossas eram proporcionais aos imponentes quadris de mulher fértil. Ela sabia que sua cintura bem desenhada seria capaz de atrair qualquer homem e que seus pequenos seios deixariam no chinelo as siliconados da TV.
Teve pena dos pobres redatores daquela revista idiota que nada sabem sobre a beleza feminina. Teve mais pena ainda das leitoras burras e infelizes. Quem foi que disse que culote é feio? Que celulite é a pior coisa do mundo? Que uma barriguinha é inadmissível? Perguntou-se, orgulhosa de seus furinhos e dobrinhas.
O espelho estava lá e não mentia. Ela era realmente linda.
15.2.07

Chegava então o dia da festa. Em poucas semanas minha vida tinha dado uma pequena reviravolta. Desde que tinha decidido esquecê-lo de vez, resolução extremamente delicada, demorada e sofrida, me sentia mais leve, mesmo com o peso de sua ausência. Seria um processo longo e dolorido, mas definitivamente não queria mais me esconder e aguardava, de coração aberto, todos os piores sofrimentos que estariam por vir. Algo como uma desintoxicação. Ficaria doente, teria crises e não haveria outro remédio além do tempo.
Melhor assim. Agia racionalmente pela primeira vez em muitos meses e me sentia forte por isso. Tomei as rédeas e agora era eu quem não queria mais. Mas confesso que o coração ficava apertado e eu engolia as lágrimas quando sabia que era ele ao telefone e, fingindo não me importar, dizia: “não vou atender, diga que não estou”
Mas então algo extraordinário aconteceu. Conheci outra pessoa. Ainda não estava em condições de me interessar de fato, mas acabei me apegando aquela pequena possibilidade de ser feliz novamente. Ele era gentil, doce e, o melhor de tudo, muito bonito. Convenhamos, há saída melhor para uma dor de cotovelo feminina do que desfilar com um homem extremamente atraente? Minha auto-estima foi sendo devolvida aos poucos e eu até conseguia sorrir de novo. Mas quando a noite chegava, ao abraçar o travesseiro, ainda era no dito cujo que eu pensava. Era a ele que eu desejava, era pra ele que, conversando sozinha, fingia contar os acontecimentos do dia. A solidão me pegava de jeito e eu chorava silenciosa, no escuro.
Como um relacionamento tão conturbado poderia ter me atingido daquela maneira? Aquilo nem mesmo tinha sido um namoro. Como é o nome de uma relação a qual, após uma noite perfeita de sexo, o cara nem mesmo pega na sua mão e é capaz de caminhar distante para não ser visto junto a você? Eu sei o nome disso. Chama-se: Homem babaca e mulher estepe. Estepe e burra!
Burra por ter me sentido a pior das pessoas ao vê-lo no cinema com uma daquelas vacas com que ele desfilava de mãos dadas. Mais burra ainda por ter me sentido tão feliz ao ser levada pra casa no carro dele, de madrugada, contente por ser a sua última opção da noitada.
Mas acabou, consegui botar um ponto final nessa história. Por que ele ainda me liga? Muitas vezes cheguei a fraquejar e quase atendi o telefone. Mas me concentrava em todas as suas canalhices para retirar forças, não sei nem de onde, e abafar a vontade doída de ouvir sua voz.
Mas hoje era a prova de fogo. O grande dia. Era aniversário dele e de um amigo em comum. Os dois comemorariam juntos e eu não poderia deixar de ir. Não perderia por nada no mundo a chance de aparecer acompanhada do meu bonitão e desfiar toda a minha confiança ensaiada, com aquele falso ar de mulher feliz e bem comida.
Caprichei no visual, estava realmente bonita. Sentia-me à altura das vadias elegantes que ele beijava na minha frente e que depois levava pra casa para voltar ao meu encontro por debaixo dos panos.
Cheguei na hora marcada, olhei em volta e... droga! Meu acompanhante estava atrasado. Não queria de forma alguma entrar na festa sozinha, isso seria o fim do meu sonho de entrada triunfal. Esperei mas um pouco e nada.
Quis ir embora, sumir.
Mas quando vi que de fato havia tomado o maior de todos os bolos, respirei fundo e entrei. Até lembrei de um amigo meu que dizia: não chore pelo leite derramado, agora o jeito é tomar de canudinho! Mas não adiantava mais... A confiança, a auto-estima e tudo o que eu havia repassado mentalmente haviam escorrido pelo ralo...
Não conseguia entender o porquê daquele bolo pois ele parecia todo apaixonado no dia anterior...
Que ódio!!
Tomei várias cervejas e fiquei assistindo de camarote o filho da puta dando atenção a todas aquelas peruas. O cartão de aniversário que eu havia escrito para entregar-lhe na ocasião já estava amassado como dinheiro de bêbado na minha mão suada de punho cerrado. Enfiei-o na bolsa e decidi que as palavras minuciosamente preparadas “não importa o que houve, te admiro muito e espero te ter como amigo...” não faziam o menor sentido agora. Até o “se cuida” preparado com muita astúcia e localizado no final do textinho, soava incrivelmente ridículo!
A cerveja ia derretendo minha máscara como ácido e eu desisti de dissimular... Me entreguei à frustração com o coração em frangalhos mas, ainda sim, aliviada.
Ao final da noite, com o lugar já vazio, o vi sentado em um canto sozinho. Onde foram parar todas aquelas loiras, morenas e ruivas de salto alto que bebiam drinks coloridos, dançavam comedidamente e falavam com ele sobre arte, cinema e arquitetura?
Com a sensação de que tudo estava perdido, me aproximei jogando no lixo dias de racionalidade, força e auto-controle. Tirei o cartãozinho do bolso e o entreguei em suas mãos. Ele me fitava fixamente com os olhos cheios de lágrimas. Não entendendo direito o que se passava, me sentei ao seu lado e o abracei com força. E então, como num sonho meio louco ele disse tudo o que eu sempre quis ouvir. Com direito a pedido de namoro e tudo mais. Um final feliz bem hollywoodiano, não fosse pelo estômago revirado e as conseqüências nada elegantes de um grande porre...
No dia seguinte o tratante me ligou pedindo desculpas pelo bolo da noite anterior. E eu, com a cabeça embriagada de ressaca e alegria só consegui lhe dizer duas palavras: "Muito obrigada!"
19.1.07
Ao me levantar, o corpo dói um pouco. Concentro-me. Uma vodka, duas cervejas e alguns goles nas bebidas dos outros. Só isso e eu me sinto assim? A noite anterior passa então pela minha cabeça num flash de segundos, como num vídeo clipe... E a conclusão não é das melhores: Estou velha.
Claro que não sou louca ao ponto de me achar realmente velha aos 26 – quase 27 – anos. Sei que sou muito jovem, que tenho a vida inteira pela frente e bla bla bla. Mas tive a nítida sensação do efeito do tempo. Foi assustador. O tempo, essa coisa tão subjetiva, que a gente fatia em anos, semanas e dias, num esforço desesperado de torná-lo um pouco mais palpável, caiu sobre mim como um tijolo. Recapitulei novamente o vídeo clipe e todos os fragmentos se juntaram fazendo um enorme sentido. Fui tomar banho.
Havia chegado no tal inferninho, local que freqüento há muito tempo, e dei de cara com rostos lisinhos, meninas de cabelos super coloridos e pouquíssimos conhecidos. Enquanto isso, meu irmão de 20 anos estava totalmente à vontade, cumprimentava a todos e me apresentava seus amigos e amigas de rostos lisinhos e cabelos coloridos. Não bastasse isso, o desconforto ainda piorou quando percebi que, além de extremamente novas, as pessoas ali eram também baixinhas. Do alto (nem tão alto assim) da minha estatura de 1,72, com o acréscimo de alguns centímetros de salto, me senti um gigante na terra dos anões frenéticos.
Todo mundo a minha volta canta e dança e eu nem conheço essa música... Comento com o dono do bar, um velho amigo meu, que a faixa etária da clientela diminui e ele diz: não mudou nada, sempre foi assim. “Como assim não mudou? Claro que mudou. Ele deve estar doido” pensei. Não tinha me dado conta, naquele momento, de que uns seis anos já haviam se passado. Seis gordas fatias de anos.
Depois de duas cervejas vou ao banheiro e me deparo com uma menina de cabelo laranja e cheia de piercings aos prantos. Meio constrangida vou fazer o meu xixi e finjo que nem vi nada. Entra mais alguém. E então escuto o diálogo da chorona com a amiga:
- Não fica assim, vamos embora, vou te levar pra casa.
- Não, eu não vou embora, eu posso agüentar.
- Olha a sua maquiagem... tá toda borrada.
- Eu vou agüentar, vou ficar aqui chorando. Sou ruiva, sou forte e eu não estou bêbada (soluços).
Achei aquilo muito engraçado e me lembrei dos tempos dramáticos da adolescência. Hilário!
Com o cabelo agora sem resquícios do cheiro de cigarro e com o corpo bem melhor do que quando acabara de acordar, comecei a me arrumar rapidamente porque já estava atrasada para o trabalho. Cheguei a me divertir com o conteúdo da minha bolsa. Um creme rejuvenecedor, um sal de fruta, umas contas para pagar, alguns boletinhos de cartão de crédito e uma agenda. Interessante... Embora a quantidade de compromissos tenha aumentado muito de uns tempos pra cá, a agenda diminuiu drasticamente de tamanho. Não tem mais espaço para aqueles adesivos extravagantes, papéis de bombom e penduricalhos de outrora.
Lá no fundo, um volume deixava a bolsa meio deformada. Uma dúvida grave: Desde quando passei a carregar guarda-chuva?
22.12.06
adeus ano velho...
Andei ausente porque esse fim de ano está uma correria... Bom, mas pra não deixar passar em branco, fica aqui o meu último texto de 2006. Amanhã viajo para um lugar sem computador, telefone, relógio, televisão... O vazio material é necessário para o preenchimento da alma. Voltarei renovada, com certeza.
Bom, não quero fazer planos para 2007, mesmo porque isso nunca funciona comigo. Não tenho disciplina e nem saco para cumprir cronogramas, já basta ter de cumpri-los nos compromissos cotidianos.
Prefiro, agora, falar do ano que passou. Foi um daqueles anos impressionantes, inesquecíveis. Foi um período de emoções intensas. Sofrimento, diversão, alegria, expectativas, medos, angústia, euforia, disposição, exaustão. Só que tudo isso de uma maneira arrebatadora.
Descobertas de 2006:
Possuo um braço elástico que é capaz de alcançar as aspirações aparentemente inacessíveis. E quando esse braço estica ao máximo e ainda não chega lá, tem sempre um empurrãozinho muito especial de alguém por perto.
Posso conviver por anos com pessoas, sem conhecê-las, e de repente me dar conta do quão especiais elas são. Sou capaz de amá-las com muita intensidade. E, por outro lado, posso ter uma convivência bem próxima com pessoas e só descobrir o lugar que elas têm em minha vida depois de me afastar. E o melhor: sempre há tempo para uma reaproximação!
Mesmo que dê tudo errado e nada saia como o planejado, sempre existem novas possibilidades. Sempre existem ou eu sempre as acho? Bom, o fato é que procuro como ninguém!
Ser responsável com os sentimentos dos outros é muito bom. Aturar quem não o é com os nossos sentimentos é um enorme disparate.
No amor, dois mais dois nem sempre são quatro. Mas os resultados inexatos e assimétricos também podem ser viáveis.
Os amigos são mais importantes do que imaginava e fazer novas amizades e abrir espaço para pessoas totalmente diferentes de mim pode ser uma experiência maravilhosa.
Ver o mar pelo menos uma vez por ano e andar de bicicleta de vez em quando me faz uma pessoa mais feliz.
Os melhores de 2006:
O melhor combustível: Otimismo.
A melhor terapia: Cantar.
A melhor nova experiência: Galo no mineirão.
A melhor surpresa: minha turma de jornalismo (já com saudades...).
As melhores pessoas: minha família.
O melhor amor? “É o velho amor ainda e sempre...”
Feliz tudo para todos! E que venha o 2007!!
21.11.06

Tava o maior calor na rua. O sol era forte e eu tinha que ficar com os olhos entre abertos para poder enxergar alguma coisa. Peguei o caminho errado. Por que eu sempre erro esse trajeto? Centro da cidade, um destino tão simples e eu sempre dou voltas... Mas tudo bem, é bom andar um pouco, deixar os pensamentos voarem livres, sem compromisso. Deve ser por isso que erro o caminho! Fico voando ao invés de andar e prestar atenção.
Na volta quis pegar um ônibus. Pensei rápido e optei por um ótimo investimento: gastar o dinheiro da passagem numa casquinha de sorvete e voltar a pé. Era daqueles sorvetes de máquina, de 1 real. “Uma casquinha só de chocolate por favor”.
A qualidade, como o esperado, não era lá das melhores. Docinho e meio aguado, mas eu até que gostei.
Era necessária certa precisão e agilidade nas lambidas porque ele derretia rápido. Recordei-me da minha infância. Hoje quase não se toma mais casquinha. Ou toma?
Me lembrei também que a última vez em que tomei um sorvete de casquinha foi a pouco mais de um ano num passeio maravilhoso em um bairro chamado Marais. O sorvete foi o melhor que já experimentei na vida e tudo mais era perfeito. Talvez um dia eu ainda volte lá para tomar aquele sorvete. Mas acho que não será a mesma coisa.
Tive de esquecer a delícia gelada parisiense de um ano atrás, para me concentrar no meu humilde sorvetinho de máquina. Eu desejava muito aquele restinho que fica dentro da casquinha onde a língua não mais alcança. Mas não queria comer a casquinha. Como fazer? Lembrei-me novamente dos tempos de criança. Os pequenos realmente sabem das coisas! Com a esperteza infantil, mordi a parte do fundo da casquinha, abrindo um buraco para que pudesse sugar o sorvete por baixo. A casquinha logo se transforma num canudão e o restinho tão desejado flui imediatamente para a boca. Genial!
Mas logo começa a pingar incessantemente e fica muito difícil não fazer uma lambreca. E então foi aí que me lembrei o porquê do abandono, na vida adulta, de tal prática.



